AS POSSIBILIDADES DE CADA UM
Na pequena cidade de São Bento das Águas Claras, havia um homem chamado Elias. Trabalhava como sapateiro desde os doze anos, mãos calejadas, olhar sereno, mas havia nele uma inquietude que nem o tempo sabia calar.
Vivia só, mas não era solitário. Sua oficina era visitada por muitos — uns para consertar calçados, outros para buscar conselhos. Não era estudado, mas dizia coisas que calavam fundo na alma. Um dia, uma moça chegou aflita. Chamava-se Clara. Os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Seu Elias, me disseram que o senhor pode me ajudar... — disse, sentando-se com dificuldade.
— Posso ouvir, e às vezes o que se ouve clareia o que se sente — respondeu ele, com um sorriso de canto.
Clara então contou: sentia-se inútil. Tentara ser artista, depois professora, depois cozinheira, depois tantas coisas. Em nenhuma se achava boa o bastante. A mãe dizia que ela não terminava nada. O pai, que ela era sonhadora demais. Os amigos já não a levavam a sério. Tinha 29 anos e nenhuma "carreira".
Elias a ouviu com atenção e, ao final, perguntou:
— Você já viu uma árvore crescendo?
— Claro... — respondeu, sem entender.
— E reparou que cada uma cresce de um jeito? Umas dão sombra cedo, outras demoram. Algumas florescem em silêncio, outras com perfume. E mesmo assim, nenhuma é inútil. Umas sustentam ninhos, outras sustentam redes. Todas são possibilidades vivas da Criação.
Clara ficou em silêncio. Ele continuou:
— O que os Espíritos nos ensinam, minha filha, é que a vida não nos exige ser o que os outros esperam, mas o que viemos ser. E isso, às vezes, leva tempo. Já pensou se a lagarta desistisse antes de virar borboleta, só porque ainda não tinha asas?
Ela sorriu pela primeira vez. Elias se levantou, pegou um par de sapatos antigos e mostrou.
— Vê esses sapatos? Foram do Pedro, aquele moço da roça. Vieram rasgados, sujos. Mas por dentro... estavam bons. Bastou consertar o que estava por fora, e hoje ele anda firme. Às vezes, é assim conosco: só estamos precisando de um reparo na esperança.
Clara chorou. Mas dessa vez, de alívio.
— E se eu não for boa em nada?
— Você está viva. Só isso já é uma possibilidade imensa. O Espírito, segundo Kardec, é criado simples e ignorante. Vai aprendendo, tropeçando, acertando. Reencarnamos muitas vezes porque temos muito a desenvolver. Talvez sua missão não seja um grande feito, mas um pequeno gesto que transforme alguém. Quem disse que ser estrela é mais importante que ser vela?
Ela saiu dali mais leve, e voltou, meses depois, com um pequeno caderno de receitas. Era modesto, mas era dela. Com ele, começou a ensinar culinária em uma escola pública. Nunca mais perguntou se era boa o bastante. Apenas fazia — e isso bastava.
Elias faleceu aos 82 anos. Mas até hoje, quem passa por São Bento das Águas Claras escuta dizerem:
— Aquele sapateiro... consertava mais do que sapatos. Costurava esperanças.
Reflexão Final
O Espiritismo nos ensina que ninguém está na Terra por acaso. Cada ser humano possui uma missão espiritual, mesmo que pequena aos olhos do mundo. A verdadeira evolução está em aperfeiçoar-se moralmente, servir com amor e desenvolver as potencialidades interiores.
Nem sempre saberemos nosso “grande propósito” — mas podemos viver com dignidade, bondade e coragem, e isso já é caminhar rumo à luz. Como disse Allan Kardec:
"Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações."
Se você ainda não descobriu o que fazer da vida, viva com amor. O resto, o tempo e a espiritualidade mostram.
••(Esta é uma obra de ficção)••

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